quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Dar sangue não é nada nice..

Ontem perguntaram-me: como é que a Maria Desmaios aguenta?
Ora pois.. a primeira vez que dei sangue, em 2002 no Curry Cabral, não foi nada simpático. A minha curiosidade parva fez-me tirar os olhos da televisão e olhar para o saco do sangue. Tudo porque estava a ouvir um toc toc e tinha a certeza que era de alguma coisa que me estava ligada às veias. Tinha razão. Olhei para o raio do saco, que estava a dançar numa espécie de balança e a fazer o toc toc.  Felizmente passou uma enfermeira, olhou para o meu melhor ar transparente e arrancou-me aquilo tudo do braço. Quando dei por mim estava numa salinha a comer a sandes de presunto que melhor me soube em toda a vida. A partir desse dia, quando ia dar sangue, mais ou menos de quatro em quatro meses, não tirava os olhos da televisão, não falava com ninguém, não mexia no telefone, só respirava. Eram só uns dez minutinhos e sabia que a seguir ia ter uma heroína sandes de presunto que me reporia toda a energia.
Mais tarde veio o IPO. Por motivos óbvios alguém me convenceu em 2009 a passar as dádivas para lá com a promessa de que era possível entrar no edifício e chegar à sala de dadores sem ver pessoas doentes. Porque para isso é preciso mais coragem, mais estômago, muito mais pressão arterial e rolhas nos olhos. Eu nem sequer choro com as voluntárias que vão à sala tocar e cantar, imaginem com doentes..
Em 2012, enquanto preenchia o velho questionário que queria saber se o nosso sangue era gay, vi um cartaz a explicar as dádivas por aférese. "Esta técnica especial permite que o seu sangue seja retirado através de um braço e passe por uma centrífuga especial através de uma sistema de tubos esterilizados. Uma parte das suas plaquetas, ou uma combinação de plaquetas e outro componente, são removidas, enquanto os restantes componentes do seu sangue lhe são devolvidos através do mesmo braço. Este processo dura entre 45 a 90 minutos."
Para além de uma dádiva desta natureza equivaler a seis dádivas normais, pode ser feita de dois em dois meses (nas normais as mulheres só podem doar de quatro e quatro meses).
Como estava acompanhada por uma Santa Amiga Enfermeira (que só foi dar apoio moral porque não tem 50kg e não pode doar sangue) enchi-me de coragem e lá fui.
Fizeram umas análises e constataram que tinha bons acessos e muito bons valores. Conclusão, podia fazer uma dádiva dupla! Estava no segundo andar, que da janela cá para baixo equivale a um quarto e já estava ligada à máquina, por isso não tive grande alternativa.

Foi bom? Não! E agora já é? Nada!
Nunca estou menos de 75 minutos a ver o sangue a sair (altura de apertar a bola), andar às voltas na maquineta, e voltar a entrar cá para dentro. Tenho sempre que tomar cálcio porque fico com a boca e os pés dormentes e café porque a pressão arterial desce (ontem foi aos 90/35), e no fim pareço um espantalho porque 75 minutos de corpo hirto e a agulha das farturas enfiada no braço não dão a ninguém um andar sexy.
Enfim, imagino-me em Monkey Bay, Malásia, a beber água de côco ou caipirinhas. E se me perguntam se é preciso coragem eu respondo que sim, mas também já saltei de avião duas vezes, já fiz duas ou três endoscopias sem anestesia e até já fiz snorkeling na tal da Monkey Bay, que felizmente só durou trinta segundos até decidir que estava muito melhor na toalha a ler.

Não é bom mas vale a pena! E, tanto quanto sei, não sou nada persuasiva.. já falei da dádiva de aférese milhentas vezes com diversas pessoas e nunca consegui convencer ninguém a ir comigo.
É mais fácil fazer partilhas no facebook de crianças carecas e pedir aos outros para se inscreverem como dadores de medula, ou a fazerem likes. Ou a escrever um Amén.

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